por Francisco Torma
O cenário para o agronegócio brasileiro na temporada 2025/26 atingiu um sinal de alerta vermelho que nenhum produtor pode ignorar. Segundo dados recentes, o desembolso do crédito rural no primeiro semestre deste ciclo sofreu uma queda drástica de 15,6%, somando apenas R$ 186,15 mil milhões. O que vemos não é apenas uma oscilação de mercado, mas o declínio real de um sistema de financiamento que já não suporta o peso da produção nacional. Enquanto os custos de produção e os riscos climáticos aumentam, o acesso ao capital retrai, asfixiando quem está na ponta, no campo, e comprometendo a viabilidade da atual safra.
É um paradoxo alarmante: o Governo Federal insiste em anunciar o que chama de “o maior Plano Safra da história”, mas, na prática, o dinheiro simplesmente não chega às mãos do produtor. Existe um abismo intransponível entre a propaganda oficial de Brasília e a realidade das agências bancárias. Apesar da crescente necessidade de recursos para modernização e custeio, o que se observa é uma execução lenta e burocrática, onde os milhares de milhões anunciados parecem existir apenas no papel, deixando o agricultor à mercê da própria sorte num momento de extrema vulnerabilidade financeira.
Este cenário revela um problema estrutural gigantesco: a terceirização da política agrícola nacional. O governo tem o dever constitucional de organizar e fomentar a atividade agrária, mas, numa omissão perigosa, transferiu essa responsabilidade para as instituições financeiras privadas. Ao lavar as mãos, o Estado permite que a soberania alimentar do país seja ditada por bancos que não possuem qualquer compromisso com o desenvolvimento rural ou com a segurança do produtor. Para o sistema financeiro, a agricultura é apenas um número numa folha de cálculo de gestão de riscos; se o risco aumenta, o crédito corta-se, independentemente das consequências para quem planta.
O resultado desta transferência de funções é que os bancos particulares, focados exclusivamente nos seus lucros e em garantias reais cada vez mais pesadas, tornaram-se os verdadeiros juízes do que será produzido no Brasil. Eles selecionam apenas os “clientes ideais”, abandonando os pequenos e médios produtores ou aqueles que enfrentam dificuldades pontuais. A lógica bancária é implacável e ignora as intempéries e as crises de mercado que são inerentes à vida no campo. Se a política agrícola continuar a ser gerida sob a ótica da ganância financeira e não do apoio estatal, o crédito rural como o conhecemos deixará de ser um fomento para se tornar uma armadilha de endividamento.
Portanto, o produtor deve estar atento e seriamente preocupado: o Estado está a abdicar do seu papel de proteger o motor da economia brasileira. O recuo nos desembolsos é a prova de que o sistema oficial está em colapso e que o governo preferiu entregar as chaves do campo aos banqueiros. Sem uma pressão efetiva para que o governo retome o controlo da política de financiamento, o futuro da produção agrícola brasileira estará permanentemente condicionado pela boa vontade — ou pela falta dela — das instituições financeiras, colocando em risco não apenas o seu património, mas a própria sustentabilidade do agronegócio.
